São Paulo
PIB – Um festival diferente
Por: Inti Queiroz
21 de abril de 2015


pibA história do Festival PIB na verdade começou começou bem antes dele. Nos anos 90 tive contato com várias bandas instrumentais, principalmente de surf music e de um tipo novo de free jazz nas cidades de São Paulo, e também em Curitiba, onde morei por 8 anos. No começo dos anos 2000, tive a oportunidade de fazer várias viagens a trabalho de produção de teatro pelo país. Nessas viagens conheci também várias cenas musicais de perto. Percebi que essas bandas instrumentais com integrantes bem jovens estavam surgindo por todos os lados e que a sonoridade dessas bandas era realmente diferente da tradicional música instrumental brasileira.

 

O que mais me chamou atenção era que essas bandas eram de vários estilos, algumas misturados e indefinidos, mas tinham uma veia de música alternativa, algo entre o rock, o experimental, o psicodélico, o eletrônico e que várias referências mostravam uma sonoridade bem moderna.

 

Em 2006, a Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo abriu um edital para festivais de música instrumental. Enviei o projeto do PIB e ele foi contemplado. O nome ainda era outro, Produto Instrumental Brasil. Porém, um pouco antes da primeira edição acontecer, e vendo o país num momento econômico promissor, pensamos em mudar para Produto Instrumental Bruto. O nome não veio como uma reverência ao PIB do país, mas como um subversão a este condicionamento da economia que tanto desgasta as relações políticas e econômicas. O festival desde o início, além de buscar esse incentivo à essa cena da música instrumental, sempre buscou um papel de reflexão sobre a cultura, e também sobre o mundo.

 

Até chegar ao que foram as primeiras edições, tudo foi muito pensado, desde seu conceito, seu formato, o tipo de bandas que entrariam ou não entrariam, que tipo de som buscávamos. A primeira edição foi um piloto e tudo era novidade inclusive pra gente. Afinal a cena ainda era pequena e poucas pessoas entendiam o que estávamos propondo.  Abrimos inscrições para a primeira edição, divulgamos pela internet e 44 bandas enviaram material. Foram selecionadas 12 bandas, algumas que já conhecíamos e outras que selecionamos quase que no escuro.

 

Na segunda edição, recebemos um bom patrocínio e assim o projeto cresceu ainda mais, talvez além do que inicialmente gostaríamos. O festival passou de 3 para 5 dias, de 12 bandas pra 20 bandas, e ganhou um especial de uma hora na MTV, que foi exaustivamente reprisado e assim ganhou notoriedade em todo país. Nesse momento, essa nova música instrumental passou a ser conhecida pelo menos pela cena da música independente e o festival PIB virou uma referência disso. Isso acabou refletindo nas edições seguintes, porém foi difícil manter o mesmo formato.

 

O PIB acabou se transformando numa produção cara e maior do que ele buscava. Na quarta edição, em 2011, não conseguimos patrocínio e acabamos fazendo um festival menor, de apenas um dia. Passamos a questionar o formato e o tamanho do festival. Cheguei inclusive a pensar em não fazer mais o PIB, mas a cena sempre me cobrava, pedia a continuidade. Por ser um festival de música instrumental, isto é, de uma música que está bem distante do que é a música comercial, nunca foi fácil levantarmos a sua produção. Depois de 2011, ficamos dois anos com o PIB de molho, repensando a fórmula e observando se a cena dessa nova música instrumental continuava a responder e a crescer.

 

Em 2013, o pessoal da Casa das Caldeiras me chamou para ajudar na gestão de alguns projetos da casa para o ano seguinte. Meu envolvimento na produção executiva do Tododomingo Musical em SP, projeto da casa de que o PIB é parte desde 2009, acabou ajudando a retomarmos o PIB, realizando a quinta edição em agosto de 2014.  Foi sucesso de público, com mais de 2500 pessoas num só dia de festival. Essa retomada foi muito importante para o festival, mas mais importante ainda para a cena da nova música instrumental.

 

Muitas novas bandas surgiram por causa do PIB. Recebemos cartas e emails de bandas de todo Brasil falando como o Festival inspirou na criação de bandas e projetos instrumentais durante todo ano. Além disso, o festival PIB permitiu que muitas dessas bandas participantes do festival se conhecessem, ficassem amigas, passassem a de fato levar a cena adiante. São mais de 60 bandas no cast do festival nesses 8 anos. Em 2015, recebemos 208 inscrições e 8 bandas foram selecionadas.

 

Quando me perguntam se existe uma cena, eu respondo que sim, mas é uma cena nova da nova música instrumental e que ainda não é conhecida do grande público. Ela é muito diferente da cena da música instrumental tradicional ou mesmo da cena que presenciei nos anos 90. Acho que vai além do chamado post-rock, algo que poderíamos pensar em chamar de pós-instrumental. Um som com uma liberdade sonora total, onde temos não apenas músicas, mas temas, que ao longo dos anos vai mudando, ganhando novas texturas. Além disso é uma cena que usa novas tecnologias na produção e no palco, que atua fortemente nas redes sociais, que  por isso consegue fazer o trampo sem precisar de produtores de bandas. Uma cena que se auto-produz e trabalha na base do “Faça você mesmo” naturalmente. É uma cena realmente de vanguarda. O diferencial estético dessa cena com a cena mais tradicional é essa mistura e influência de outras cenas e também o uso dessas tecnologias.

 

Se pensarmos que das mais de 600 inscrições que tivemos em 6 edições do PIB, pelo menos metade foram de bandas que tinham a estética dessa nova cena, realmente é bastante coisa. Muitas das bandas que tocaram no PIB nem existem mais,  mas nesse meio tempo, algumas delas cresceram muito, tocando mais fora do Brasil do que aqui e muitas outras bandas incríveis surgiram. Em 2014, essa cena teve uma injeção de ânimo com os novos projetos parceiros voltados para ela, como o Música Muda, o Mais instrumental, e o Onda Instrumental. Curioso é que são projetos criados por integrantes das bandas que tocaram no PIB e o espírito desses projetos é o mesmo: fomentar a cena da nova música instrumental.

 

A sexta edição, em 2015, vem para mostrar a todos, inclusive pra gente, que é possível fazer um festival de forma independente, mesmo com toda a dificuldade da falta de verbas. Serão mais de 10 horas de música ao vivo, bandas de 4 regiões brasileiras, mais de 40 artistas envolvidos. Muito trabalho colaborativo. Sem grandes cachês, mas todo mundo recebe pra trabalhar e fazer o festival acontecer. Além dos shows, teremos exposições de arte, apresentação de dança e uma feira cultural. Tudo misturado pra mostrar a vocação desta nova música de também ser trilha sonora pra todas as outras linguagens culturais e artísticas.

 

O Festival PIB 2015  acontece de 24 a 26 de abril no Complexo Cultural Funarte SP e na Casa das Caldeiras (clique aqui para ver a programação completa). Venham todos conhecer esse novo som!

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